quarta-feira, 19 de maio de 2010

Ah, quem me dera!

Quem dera envelhecer e sempre manter o humor contagiante dos áureos tempos de adolescência, com riso fácil, me agarrando aos relacionamentos ingênuos, à generosidade. Envelhecer livre para dizer: meu Deus eu te amo e não ser censurado, e mesmo sendo censurado, dizer: meu Deus eu te amo.

Quem me dera envelhecer acreditando nas pessoas. Envelhecer feliz com os filhos que tenho, lamentando as perdas mas nunca as deixando me subjugarem. Deleitar-me na companhia dos amigos que persistiram há anos de amizade e desencontros, que persistiram na velhice, na virtude e no defeito. No heroísmo e na covardia.

Envelhecer recebendo atenção nos dias importantes da minha vida, e um beijo a cada gesto digno executado. Envelhecer ouvindo dizerem: você é um bom amigo mesmo quando tenho que dizer não há alguém. Quem dera aos setenta anos me deslumbrar com uma família bem estruturada, firmada em padrões cristãos.

Quero chegar aos setenta anos e ainda poder arrancar de meus netos uma risada e ouvi-los dizer: esse meu avô é tão querido! Mesmo depois de eu ter chamado sua atenção por alguma peraltice realizada. Ver meus netos ainda me chamando de vovô sem temerem serem censurados por seus amigos.

Ah! Quem me dera envelhecer com belos cabelos brancos, escassos sim, mas belos e sempre renovados. Quem dera envelhecer usando roupas claras e alegres, combinando detalhes dos sapatos, tirando o melhor da vida. Atravessar a rua sem precisar de ajuda. Mas não recusando se alguém me der a mão.

Quem me dera envelhecer com a sabedoria de quem tem muito a descobrir ainda. Vendo a beleza das pequenas coisas, colhendo laranja no pé, espetando de vez enquando um espinho na mão, andar descalço e vez por outra espetar alguma roseta nos pés envelhecidos mas ainda firmes. Pescar somente pelo prazer de ficar parado esperando aquilo que não prometeu vir.

Quero que as utopias sejam o alimento da minha velhice. Acreditar que muito ainda pode mudar, quero acreditar mesmo estando velho e fraco que nosso pais ainda pode ser melhor, que as pessoas olharão muito menos para sentimentos pessoais e mais para o altruísmo.

Quero envelhecer sentindo prazer de ir votar no dia das eleições, sentir prazer em ostentar a camisa do meu candidato sem medo de que amanha ele pode estar envolvido em coisas imorais. Quero envelhecer acreditando que um dia ninguém mais passará fome no mundo a não ser por opção pessoal.

Por isso quero envelhecer ainda menino, me atirando nos braços de meu Pai eterno a quem devo a vida e para quem vivo a vida.

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